Aventura em Seattle

Pois é, minha gente, tô aqui de volta.

Cheguei da França ontem após um voo de mais de 11 horas e ainda estou em processo de desarrumação as malas e readaptação a minha vidinha brazuca.

Em breve começarei a escrever sobre minhas aventuras na Cidade Luz. Enquanto isso não acontece, deixo vocês com um texto escrito pelo meu saudoso amigo Gabriel Fagundes, jovem embaixador do estado do Amapá, sobre um dia intenso em Seattle. Convenhamos: o menino tem talento!

The missing bus incident*

I – Dia-a-dia

Era uma sexta-feira, 20 de janeiro. Levantei da cama, abri a agenda e as persianas. Deparei-me, outra vez, com aquela vista maravilhosa do alto das montanhas. “Eu não acredito, obrigado Deus”, minha alma exultava. Ainda estonteado, fui tomar uma boa ducha e depois me arrumei para ir ao encontro da Seattle Team. Naquele dia a neve caía impiedosamente, cobria as casas, interditava as ruas e pesava sobre as árvores com uma camada branca e espessa. Seattle estava quieta e nenhuma de suas fascinantes luzes fora ainda acesa.
Meu host father, o senhor Prabhu, me levou de carro até a Roosevelt High School, onde se encontravam os outros jovens embaixadores, a Hayley, B. Hobbs e o ônibus da Starline, pintado com um belo tom de azul e dirigido pelo pacato Bob (que sempre carregava consigo uma garrafa de Coca-Cola). Saudei todos eles e, juntos, fomos tomar café e fazer o check-in.
Dentro do ônibus o clima era sempre este: de risadas, de felicidade, de confraternização. Dia após dia a afeição que tínhamos um pelo outro só crescia. É tão gostoso lembrar! Depois de refletirmos e compartilharmos as experiências que tivemos com nossas respectivas host families, dirigimo-nos para a grande programação do dia: The Vera Project.
Fomos recebidos por um jovem que tinha um estilo rock n’ roll, com moletom preto e calça jeans, cabelos loiros meio bagunçados e do qual eu não lembro o nome. Lá dentro, um cheiro forte de cigarro pairava sobre o ambiente. Seguimos o jovem até uma sala bastante desorganizada, com tintas espalhadas por sobre várias mesas, paredes com desenhos esquisitos, mas bonitos. Era um lugar bastante underground, eu diria. Foi lá que fizemos nossas camisas oficiais da Seattle Team, aprendemos como fazer estampas, dentre outras coisas interessantes.
Bem, chegara a hora de nos separarmos e voltarmos pra casa.
Já de volta à Roosevelt, despedi-me da equipe e desci do ônibus. Hayley me acompanhou.
– Prabhu is on the phone and he is telling me that he cannot come because of the snow. He also told me that you know how to go home by bus – ela disse segurando o telefone. What do you think?
– Sure, I can go – eu respondi.
– Are you sure? I can drive you home if you want.
– No, that’s ok, I can go by myself.
Eu realmente estava confiante que poderia ir de ônibus para casa. Hayley me levou, então, até a University Street Station.
– You know you have to take the bus 212. Prabhu is waiting for you in the last stop, – com um encantador sorriso, ela finalizou – be careful.

II – O erro

Eram 18 e 30 da tarde. A estação de ônibus e trem onde eu me encontrava estava pouco movimentada. Enquanto o ônibus 212 não dava sinal, fui olhar o painel de horários. Sentei num banco e esperei. Lembranças de dias anteriores, quando o senhor Prabhu e eu fomos até aquela estação, vieram até minha cabeça. Um emaranhado se formou e um número se fixou em minha mente: 550.
Comecei, então, a ficar confuso. Alguns dias atrás fora o ônibus 550 que eu pegara para ir até a University Street Station. Por que eu deveria, desta vez, pegar o 212? “Acho que a Hayley se confundiu”. Decidi, depois de muita confusão, pegar o 550, que constantemente passava pela estação.
Meu espírito foi tranquilizado quando vi que o painel do ônibus indicava “Bellevue”, cidade onde minha host family morava. A viagem começava, eu sentei e aguardei.

III – O forasteiro na cidade grande

Anoitecera. A viagem, que deveria durar cerca de 30 minutos, já ultrapassa pouco mais de 60. Eu fitava as pessoas que estavam ao meu redor, levantava e olhava pela janela, depois me punha a sentar. O nervosismo começara a tomar conta de mim, embora eu não estivesse convencido de que estava perdido.
Avistando um local muito semelhante ao qual eu pensava que o senhor Prabhu estaria esperando por mim, desci do ônibus. Andei até um estacionamento que estava do outro lado da rua. Nenhum sinal do senhor Prabhu, nenhum carro que se parecesse com o dele. Perguntei a uma senhora onde eu estava e como poderia chegar até Bellevue.
– Take the 550.
Estava comprovado que ter descido por ali fora um engano. Tornei a atravessar a rua e peguei o mesmo ônibus que me deixara ali.
A viagem prosseguia. Não muito distante de eu estava, o 550 chegaria ao ponto final.
– Last stop! – o motorista mal-humorado gritou.
Dentro do ônibus, eu e mais quatro pessoas formávamos o grupo de últimos passageiros. Quando desci, me encontrava em um local que eu sabia que não era onde eu deveria estar. Prédios gigantescos e brilhantes, alto fluxo de pessoas e carros por todo lugar; um centro urbano muitíssimo movimentado. Foi quando convenci-me que estava perdido.
O meu coração estava encantado, mas minha mente preocupada. “Todos devem estar procurando por mim, eu preciso dar um jeito de voltar e logo.” A aventura iniciara-se.
Ainda observando a paisagem, comecei a caminhar pela calçada. Uma moça bastante morena, de olhos grandes, que estava no ônibus, seguia na mesma direção que a minha. Falei com ela.
– Do you know where can I take a bus to Downtown Seattle?
– Yes. Go forward and after three blocks turn to the left. You’ll find the bus terminal.
– Thank you lady, good night!
Segui o conselho da moça. O frio que fazia era de congelar a cuca e os meus agasalhos não estavam me aquecendo tanto. Chegando ao local indicado, deparei-me com uma rua mal iluminada e suja. Caminhei por ela e comecei a sentir um frio na barriga.
Na minha frente, visualizei alguns perfis. Ao me aproximar, notei que eram homens, que fumavam e conversavam em voz baixa. Passei por eles e assegurei-me de não encará-los. Mais a frente, olhei para trás: quatro, dos seis homens que eu vi, começaram a caminhar no mesmo rumo que eu.
Eu apertei o passo. Eles também. “Meus Deus!”, pensei.
Percebendo que eles estavam me seguindo, decidi correr. Eu sempre fui um excelente corredor. Aos 9 anos eu me assemelhava a uma marreca.
A rua parecia inacabável, e eu estava começando a me cansar. Empurrava as pessoas que ficavam na minha frente, procurava uma saída e não encontrava. Entrei num beco e me escorei na parede. Dois outros homens, do mesmo grupo, estavam por ali, e seguravam facas!
Voltei a correr. Joguei algumas latas lixo no caminho para atrapalhar a passagem dos caras. Subi umas escadas e sai por uma rua mais iluminada. Avistei um restaurante e entrei lá. “Ufa, consegui despistá-los!”. Eu estava suando frio.
Voltei a procurar o terminal de ônibus. O meu relógio constatava 20 horas. Depois de colher informações e caminhar muito, encontrei o que procurava. Depois de 30 minutos dentro do mesmo 550, retornei a Downtown Seattle.

IV – Enfim, a caminho de casa

Voltei para a University Street Station. Eu tinha que encontrar uma forma de comunicar aos meus host familiares e amigos que eu estava bem. Eu não poderia mandar mensagem do meu iPad, pois ali não havia Wifi. Perto de onde eu estava, um rapaz louro, bem magro, de olhos que denunciavam um cansaço extremo, digitava alguma coisa no seu celular. Fui até ele, cumprimentei-o e pedi-lhe que enviasse uma mensagem para o número da Hayley. Seu nome era James.
– Sure – com olhar meio desconfiado, porém simpático, ele respondeu.
De repente, um som muito estridente se fez. As pessoas que estavam na estação começaram a correr em desespero, e os guardas da segurança pediram para que saíssemos dali. Algum ponto da University Street Station estava pegando fogo.
Corremos para cima da estação. Lá fora, chovia e ventava fortemente.
– I’ve sent – disse James.
– Thank you, thank you very much. Have a good night!
– Thank you. Welcome to Seattle! – e saiu debaixo da chuva, cobrindo-se com um casaco preto.
Ansioso como estava, fui atrás de um Starbucks para enviar outra mensagem para a Hayley, dessa vez de minha autoria. Andei por cerca de dois quarteirões e voltei. Quando estava chegando à esquina da estação, avistei o carro dela. Meu coração palpitou de alegria em vê-la. Ela, por sua vez, abriu a porta do carro em desespero, chorando. Isso cortou-me a alma.
– Come here! You’re fine! Thanks God! Oh my…
Ela me abraçou muito forte, e eu a ela.
– Was my fault, completely my, Hayley. Please, don’t feel bad! – eu dizia.
Entramos no carro. Eu fiquei de cabeça baixa, taciturno.
Fomos buscar a B.Hobbs. Quando chegamos no local onde ela se encontrava, vi que ela também estava chorando. Eu me sentia cada vez pior.
– Oh my God, Gabriel! – ela disse e depois me abraçou, aos prantos.
A Hayley e a B.Hobbs me levaram pra casa. Chegando lá, o senhor Prabhu perguntou se eu estava bem, conversou com as meninas, que voltaram a chorar.
– I’m feeling bad, Prabhu.
– Don’t worry, women cry all the time – Prabhu disse, sempre bem-humorado.
Me despedi delas com mais fortes abraços, chorando.
– I love you!
– Love you too!
A porta fechou-se, e elas se foram. Tirei os sapatos molhados, passei a mão no meu cachaço e fui sentar à mesa para comer alguma coisa…

título por Hayley Kanlyn

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