Another Perspective

January, 18th 2012

Charlotte, North Carolina 

Aquele dia ia ser diferente, sabíamos.

Estávamos em Charlotte há uma semana e alguns dias. Já tinhamos tido tempo suficiente para nos acostumar com a dinâmica da Olympic High School. Brasileiros são assim, se adaptam facilmente às mais variadas situações. Chato, né?

Lá havia uma verdadeira miscelânea de pessoas; a definição de “melting pot” estava ali. Naquela escola, todas aquelas pessoas heterogêneas entre si conseguiam compor um conjunto inteiramente homogêneo. Parece complexo e paradoxal, mas é mais simples do que você pode imaginar. No entanto, só a vivência pode elucidar. Esse conflito de opostos me lembra um fragmento de Heráclito que diz: “O contrário é convergente; e do divergente, a mais bela harmonia”. Era exatamente isso.

Pois bem, voltando ao assunto inicial do post, naquele dia teríamos a oportunidade de passar um dia inteiro numa escola bem diferente da Olympic, a Providence Day. A primeira diferença óbvia era o status da escola: a Olympic é pública, enquanto a Providence é particular. Esse simples (ok, não tão simples assim) fato desencadeia uma série de outras diferenças, dentre elas, a estrutura da escola e o “naipe” dos alunos, se é que você me entende. Só estuda lá quem tem muita (muita mesmo) grana.

No caminho da escola, passamos por essa escultura de ferro que se chama Metalmorphosis. O mais legal é que ela se mexe!

Dito isso, você pode imaginar que toda aquela homogeneidade da Olympic não foi observada por mim enquanto estive lá. Juro que senti falta daquela hospitalidade, mas eu estava apenas chegando e não queria fechar minha mente. Estava ali para experimentar algo novo, então, que venha!

Fomos recebidos pela diretora, que nos guiou por todas as partes da escola para que pudéssemos melhor conhecê-la. Ficamos todos encantados com a quantidade de recursos que o local oferecia aos alunos.

Após uma conversa com os docentes, tivemos a oportunidade de escolher três aulas para assistir. Eu escolhi geografia, francês e biologia.

A aula de geografia que assisti foi numa turma de 8ª série. Os alunos estavam desenvolvendo um jogo didático que visava a fixação do conteúdo que estavam aprendendo no momento, os tipos de solo (fértil, infértil, o que acontecia com um solo afetado por agrotóxicos, etc). “Um pouco atrasados em comparação ao Brasil” – pensei. No final da aula, o professor justificou esse “atraso”: Eles só começam a ter aulas de geografia a partir da oitava série, o que significava que aquele era apenas o primeiro ano de ensino da matéria. Segundo o professor, os americanos não tem uma ampla visão de mundo. Se você pedir que eles apontem o Brasil num mapa mundi, certamente eles não terão nem noção do hemisfério no qual o país se localiza (e olha que o Brasil não é nem um pouco pequeno!) Disse-lhe que aqui nós temos aulas de geografia desde o primário e isso o surpreendeu de uma forma positiva. Outro ponto que ele ressaltou foi o lado ruim da globalização: os alunos tem acesso a informações de maneira extremamente fácil, sem precisar buscá-las visando a expansão de seus conhecimentos. Como prova disso, ele chamou um aluno que estava próximo e pediu-lhe que me mostrasse um aplicativo em seu celular que respondia qualquer pergunta que fosse feita oralmente em questão de segundos. Incrível, nem o trabalho de digitar a pergunta você tinha! Curiosa que só a peste, eu quis testar a verossimilhança da inovação e pedi para que o aluno perguntasse ao aplicativo (nossa, que estranho!) quem era a presidente do Brasil. Em menos de 10 segundos veio a resposta certa. Como pode? Seria um oráculo portátil?

No final da aula, o professor mandou uma gafe colossal, que eu não esperaria ouvir de ninguém, muito menos de um professor de geografia. Quando eu disse que morava no Rio de Janeiro ele emendou: “ah, lá naquela cidade onde tem a estátua da Virgem Maria, né?”

ESTÁTUA DA VIRGEM MARIA, meu caro, VIRGEM MARIA!

E eu ainda me dei o trabalho de responder. Que gafe, meu! Prefiro acreditar que ele tenha confundido a estátua do Cristo Redentor com a da Virgem Maria que existe no Chile, afinal, existe apenas uma pequeeeeeena diferença entre as duas, né? Totalmente perdoável!

Qualquer semelhança é mera coincidência.

Fomos convidados a nos apresentar aos alunos da escola no auditório. Gente, eu não sou muito tímida, mas confesso que tremi quando subi ao palco e vi aquela quantidade de gente lá embaixo olhando pra mim:

Hi, my name is Laís and I’m a diva

Depois disso, fizemos uma apresentação sobre o Brasil para alunos do ensino médio. Apesar de eles terem se comportado de maneira completamente apática, seguimos. O resultado não foi de acordo com as nossas expectativas, já que contávamos com a participação e colaboração dos alunos e também por causa do nervosismo típico da primeira vez que nos bateu.

Após a apresentação, almoçamos com alguns alunos da escola e aproveitamos para conversar com eles. Conhecemos a Terri, pessoa que depois me convidou para uma das piores coisas que eu já fiz em toda a minha vida, mas isso aí já são cenas do próximo capitulo…

As meninas que ficaram apaixonadas pelos olhos do Igor

Todo mundo de barriga cheia? Então dá-lhe aula!

Escolhi a aula de francês e foi maravilhosa! Jorge e Rafael resolveram se render aos biquinhos do idioma e encarar essa junto comigo. O professor já tinha morado na França por um bom tempo e os alunos eram super bem treinados. Fizemos uma aula só de conversação, na qual pudemos conhecer mais de cada aluno e falar sobre o Brasil também. Adorei! Lembro que o Rafael teve um ataque de risos ao saber que um dos alunos de chamava Reymond. Pois é, ele pensou na tradução “Raimundo”, começou a rir loucamente na frente do menino e como ele não falava francês, sobrou pra mim justificar o motivo das gargalhadas.

Depois foi a vez da aula de biologia, que TODO o Charlotte Team assistiu. Não sei se já comentei antes, mas quase todos os integrantes do grupo queriam ser médicos (com exceção de Daniel e Ítalo). Biologia definitivamente era a nossa praia! Adoramos também, ainda mais porque a sala era super interativa. Havia um laboratório numa sala anexa à sala de aula.

com nosso amigo esqueleto

Para finalizar o dia na Providence, fomos a um dos clubes da escola para um gathering com os alunos. Lá jogamos ping pong, comemos pipoca, conversamos, fizemos amigos e pagamos mico.

Sim, pagamos mico, é claro! A Clara mandou um “what the hell?” no meio de um grupo de meninos e todos começaram a rir em uníssono. Acho que é um tanto quanto feio usar essa expressão, mas só descobri isso naquele dia.

Viemos embora, mas dessa vez não nos dispersamos na Olympic como costumávamos fazer. Naquele dia, Jorge passou a noite com minha família. Resolvemos, então, ir ao Walmart já que o Jorge queria comprar algumas lembrancinhas para seus parentes (ah, as malditas lembrancinhas…). Quem estava dirigindo era a Valentina, e como dirige bem a bichinha! By the way, quando chegamos na loja, meu pai me presenteou com uma calça, Jorge comprou uma caneca para seu avô e compramos também um pouco de feijão (enlatado, argh) para fazermos um jantar brazuca mais tarde.

Como ele ainda queria comprar algo para a sua avô, fomos a Marshalls. Só quando cheguei lá foi que descobri o local de trabalho de minha mãe. É, eu realmente levei a sério aquela história da orientação em São Paulo de que nós não deveríamos perguntar o que nossos host parents faziam da vida. Uma semana e alguns dias depois da minha chegada em sua casa é que eu fui descobrir por acaso a profissão de minha mãe, que era vendedora.

A Marshalls é uma loja super cool. Lá vende-se umas roupinhas super legais e eu fiquei apaixonada por certas que vi. Minha mãe me deu uma blusa maravilhosa que eu amo e uso muito aqui no Brasil. Percebeu que eu já poderia compor um look completo com todas as peças de roupas que eles haviam me dado de presente? Calça, camisa e bota… E tô pronta para sair!

Voltamos para casa e fizemos nosso jantar. Lá em casa tinha uma máquina de fazer arroz, acredita? Resolvi uilizá-la e deu razoavelmente certo (desconsiderando o fato de que o arroz ficou grudado). Quanto ao feijão, segundo o que dizia no verso da lata, só precisávamos tirá-lo de lá de dentro, colocar em uma panela, completar com água e mandar pra dentro. Eu pensei que ia ficar horrível, mas por incrível que pareça, depois de um pouquinho de sal ficou ÓTIMO! Cá pra nós, aquilo deveria estar uma bosta, mas eu devo ter achado o contrário porque não comia feijão há muito tempo. Mas sério, te juro que ficou óoootemo o meu feijão sem tempero nenhum. A Valentina, que adora comida brasileira, adorou o prato especial da chef Laís (especialidade da casa, cofcof), bem como o Jorge. Eu achei que ele, que conhece bem o prato, fosse me crucificar pelo crime que eu cometi, mas quem não tem cão caça com gato, não é? Quem não tem feijão bonitinho no saquinho e todos os condimentos maravilhosos que nós temos aqui para incrementar a comida, faz com água e sal mesmo e olha que fica uma delícia!

Meu pai não quis comer, pois disse que feijão preto lhe dava indisposição. Hunf, não sabe o que perdeu…

Quando o Jorge foi embora, eu e Valentina subimos para o meu quarto e ficamos tricotando sobre nossas doenças.

Sofríamos de paixonite platônica aguda, coisa de meninas…

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